Aconteceu em meados dos anos 40, em Campina Grande, na Paraíba. A família era daquelas mais tradicionais como nos filmes antigos, ainda em preto e branco. Jorge Abreu Pereira era um homem bom, influente e chefe de uma família rica. Servia o Estado, os filhos, amigos e claro, sua fiel e amada esposa, Dona Josefa Pereira. A tropa era grande. O casarão também. Os filhos homens tinham algo em comum: a letra G. Geraldo, Gerônimo, Gerson, Getúlio, Gervásio e Genilson. As mulheres não tiveram o mesmo privilégio, contudo foram agraciadas com belíssimos nomes. As donzelas eram Maria do Carmo, Maria Socorro, Severina, Deusarina e Maria João. Ao todo, 11 filhos com traços físicos parecidos, típico da família Pereira. Sobrancelha grossa, boca carnuda e queixo para dentro. Certamente, cada filho tinha uma personalidade. Alguns eram quietos e calados, outros mais tagarelas e agitados, mas todos com uma educação implacável.
A família Pereira era rica. Jorge Abreu tinha uma dedicação invejável. Era um homem empenhado e sempre muito ocupado. Gostava do certo e repudiava qualquer infração. Autodidata, sua profissão era servir. Dominava o inglês, francês e arranhava um pouco de alemão. Juntamente com Naldo, seu irmão mais novo, Jorge Abreu era dono de um moinho que produzia fubá, pó de café, queijos e derivados. Trabalhava também como guarda-livros em uma firma de algodão, onde era o braço-direito do dono. Na política, cumpriu mandato de vereador no período de 1947 a 1951. Foi maçom. Era o grão-mestre da maçonaria de Campina Grande. No Rotary Club, era diretor da organização. Naquela época, Getúlio Vargas nomeou Jorge Abreu como agente consular da França, juntamente com o embaixador do País. Quando alguma autoridade visitava o Estado, quem os recebia também era ele. No casarão onde morava, havia mastros com as bandeiras do Brasil, da França e do Estado da Paraíba. Nos feriados, erguia os pendões. Um homem bom, com o coração puro em uma época diferente. Acima de tudo um pai, e mais tarde, avô.
A casa da família estava sempre abarrotada. Moravam 13 pessoas. Precisava de duas empregadas para mantê-la impecável. Dona Josefa vivia para os filhos e para o marido. As crianças eram a alegria da casa, assim como em qualquer lar. A hora da janta era sagrada e o horário estipulado. Ali conversavam e se alimentavam. A mesa da ceia, de madeira, um pouco rústica, ainda está presente na memória dos herdeiros. Foi uma época boa.
Época de descobrimentos e inovações. Existiam conceitos que, com o passar do tempo foram mutilados ou adaptados à globalização do século XXI. O tempo passa e não foi diferente com a família Pereira. Os filhos mais velhos já estavam à procura do par perfeito. As moças fugiam com os rapazes para as cidades mais próximas e quando voltavam eram presenteados com o casamento. Rapazes de 15, moças de 14. Os mais assanhados pulavam o carnaval e o São João embrulhados por lança-perfume. Estavam prontos para a paquera. Reza a lenda que ninguém cheirava, talvez por falta de informação ou ingenuidade. Na verdade, era uma forma de demonstrar para a pretendente que estava com outras intenções. Apertavam o gatilho do spray e tudo virava festa.
Enquanto isso, a segunda filha da família Pereira, Maria Socorro, casara-se com Patrício. O genro era um homem correto, honesto e com espírito empreendedor. Tinha uma visão inovadora com negócios, mas precisava de alguém para garantir seu investimento. Tinha a pessoa certa em mãos: o sogro. Apresentou então, ou projeto de uma padaria moderna para concorrer com a única que tinha domínio em Campina Grande/PB, a Panificadora do Agenor. Jorge Abreu aceitou a proposta e entrou com o dinheiro. Muito rico, avalizou todos os empréstimos do genro. A idéia foi fantástica! Em curto-prazo, mirabolante. Ao mesmo tempo, o moinho de café colombo caminhava rumo à falência. Naldo, sócio e irmão de Jorge Abreu era um homem mulherengo e enfrentava os problemas com o álcool. Bebia muito, não desperdiçava uma gota de cachaça. A falta de uma boa administração foi o preço que eles tiveram que pagar. Em pouco tempo, os dois empreendimentos anunciavam a falência.
Jorge Abreu foi obrigado a vender todos os bens. Eram mais de 30 imóveis alugados, além do casarão em que morava a Família Pereira. Enfim, liquidou os empréstimos feitos pelo genro e as dívidas da indústria de café. Com todas as adversidades da vida, um homem como aquele não poderia ficar parado, era um verdadeiro desperdício. Já com seus 50 anos de idade, decidiu trilhar outros caminhos. Foi para o Rio de Janeiro.
Em 1955, já não era a tropa toda. Jorge Abreu, Dona Josefa e cinco filhos, buscavam uma saída em outra cidade. Restou naquele momento, a esperança e a dignidade daquela família. Era preciso dar a volta por cima. Recomeçar a vida em outra cidade é uma tarefa árdua. Adeus casarão. Bem-vindos à Botafogo. Tudo diferente. Pessoas, clima, cidade, ritmo de vida e trabalho. O mestre tinha perdido todos os bens conquistados em meio século, mas a inteligência permaneceu.
Foi trabalhar como tradutor na Confederação Nacional da Indústria, CNI. Aos poucos, foi se restabelecendo no mercado. Depois de muito suor derramado, quitou um tremendo apartamento na rua General Glicério, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Construção antiga, prédios que duram uma eternidade, não construídos nos dias de hoje. 10 andares, formidável. As crianças tinham medo do elevador. Fazia muito barulho e as grades pareciam uma prisão.
Foram 25 anos de trabalho na CNI. Estava na hora de se aposentar, mesmo contra a vontade de Jorge Abreu. Aquele homem já careca, alto, magro, com poucos cabelos castanhos, defendia com unhas e dentes que o homem não pode parar de trabalhar, caso contrário, encontraria a morte. Aposentou aos 75. Seis meses depois, veio ao óbito. Uma perda para a humanidade.
Os filhos cresceram. Dividiram-se entre o Rio de Janeiro, Campina Grande, Recife, Brasília e Estados Unidos. A maioria, casados ou constituindo uma família. Todos muito bem encaminhados. Para Dona Josefa, foi um choque irredutível. Não conseguia aceitar tamanha injustiça de Deus. O casamento durou 58 anos. Faltavam apenas 2 para completarem as Bodas de Diamante. Parecia não suportar tanta dor. No subconsciente, ouvia vozes do amado. A família se preocupava, mas não era para tanto. Seus 90 anos diziam por si. Foram 15 anos que durou a eternidade no coração de Dona Josefa. Aos 96, foi encontrar Jorge Abreu.
setembro 14, 2011 às 12:03 am
e assim começa meu parceiro… vou mandar muitas idéias pra vc apesar de não precisar neh…
abração meu velho
setembro 14, 2011 às 1:44 am
Nossa, sem palavras!!! Que linda família essa, e como viveram felizes, porque eles tinham um marido e pai muito valente.
outubro 10, 2011 às 3:00 pm
Nossa irmão… sem palavras tbm…
Sessão nostalgia… A parte do elevador (medo!)… boas lembranças!
outubro 25, 2011 às 1:58 am
Nossa…. que fôlego! Uma história memorável; muito bonita, densa, dinâmica e instigante. Leo, parabéns pelo dom da narrativa… vi as cores das paredes, dos campos, de tudo. Parabéns mesmo!
dezembro 7, 2011 às 3:37 pm
Leitura agradável. É possível entrar na história da forma em que é detalhada. Parabéns.